18 de fev de 2009

O tempo e a falta de tempo


Adão de Assunção Duarte*

Suposto que o espaço seja a distância entre dois pontos, o tempo é o espaço entre dois fatos, a “espera” entre dois eventos.

Entretanto, pela Teoria da Relatividade, “o tempo e o espaço em si reduzem-se a meras sombras e só uma espécie de inter-relação entre ambos dá um caráter de independência”.

Uma das mais belas páginas da literatura universal lembra o seguinte:

Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer,e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar , tempo de derribar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir,tempo de prantear, e tempo de saltar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras, tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de aborrecer; tempo de guerra, e tempo de paz”...(Salomão, Eclesiastes, 3:1-8).

Os membros da sociedade contemporânea precisamos usar bem e dominar carinhosamente o tempo, de modo racional, pois do contrário ele nos domina e nos devora, como Saturno a seus próprios filhos. Por outro lado, a chamada “falta de tempo” significa, quase sempre, uma desorganização de nossa parte, quando não preguiça e negligência. E isso dizemos porque, muitas e muitas vezes, é possível fazermos mais de uma coisa ao mesmo tempo, e a vida cotidiana está cheia de exemplos claros e práticos.

A sociedade de consumo e de competição atual mostra as pessoas usando o tempo para mais de uma coisa ou assunto, como sejam: estudar viajando ou viajar estudando, dirigir fumando ou fumar dirigindo, dirigir celularizando, ler na fila, amar na fila, falar comendo ou comer falando, fazer dois cursos, médios ou superiores, ao mesmo tempo etc. Na zona rural, cantar capinando, capinar cantando, São estes alguns exemplos apenas para ilustrar. Claro que não se pode fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas algumas, pois de outra forma poderíamos cair no abuso mencionado no conhecido ditado popular que leciona “o homem dos sete instrumentos não toca bem nenhum”!

Se organizarmos racionalmente nossas atividades, poderemos ter mais tempo e aproveitaremos aquilo a que aqui chamaremos o intertempo, o somatório dos intervalos ou “espaços” entre dois ou mais “tempos”... Sentimos, assim, que o tempo comporta estudo filosófico, sociológico, funcional e profissional. Não é sem razão que que surgiram disciplinas como a Cronoanálise, Cronologia em nosso mundo.

De qualquer modo, temos de valorizar bem o tempo, inclusive o tempo de lazer sadio, como já o fizera Laurindo Rabelo, em seu belo e conhecido soneto A Conta do Tempo, cujos tercetos lecionam:

“Ó vós que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis esse tempo em passatempo,
cuidai de enquanto é tempo fazer conta...

Mas ah! Se os que contam com seu tempo,
fizessem desse tempo alguma conta,
não choravam como eu o não ter tempo”!

Por sua vez, o saudoso Constâncio Vigil, em sua Terra Virgem, escrevera com notável elegância:

“O tempo, como o vento, seca as lágrimas. Como a água, tudo devolve. Como o fogo, reduz as coisas a cinzas. Como o sol, tudo esclarece. Aclara o confuso, descobre o recôndito, encontra o perdido, reconcilia os inimigos, Poe a prova o amor e a amizade, cega e confunde os ambiciosos, abate o orgulho, extingue as paixões, dá conformidade. Quem se joga contra ele, terá o malogro. Quem o aguarda, torna-se poderoso e o quem o toma como aliado, estabelece comércio com a Sabedoria”.

Aqui, portanto, a nossa homenagem ao bom uso do tempo e sem se esquecer o precioso tempo do lazer, do esporte e do descanso, ao lado do tempo de atividade para todos. Nosso esforço também neste pequeno estudo, é no sentido de abrir perspectivas de mais valorização e melhor análise e do tempo, respeitando também os variados pontos de vista dos demais seres humanos.

*Perfil:Duarte, Adão de Assunção. Crônicas de um Migrante, pp. 14/16,São Paulo: EDICON, Editora e Consultoria Ltda, 1990 (edição esgotada). O autor é Juiz Federal aposentado, Advogado, Professor Universitário. Autor de diversos artigos publicados em jornais de grande circulação na capital baiana.

Leia outro artigo do autor:
Deus e o Universo

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